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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
Existe um ditado que é "dinheiro compra tudo, menos felicidade", pois bem, dentro desse "tudo" existem coisas interessantíssimas e únicas, como por exemplo: poder assistir a história acontecendo de camarote! Ou nesse caso específico, não só de camarote, mas no gramado aonde acontece o jogo, ao lado dos jogadores.
Imagine a cena. Domingo, dezenove de julho de dois mil e vinte e seis, MetLife Stadium, em Nova Jersey. O apito final acaba de ecoar. A seleção campeã se ajoelha no gramado, e o capitão começa a caminhar em direção ao palanque onde a taça espera, banhada de luz, com o mundo inteiro olhando. E há quem acompanhe essa cena não da arquibancada, mas de dentro do campo, a poucos metros do troféu, pisando na mesma grama em que a história acaba de ser escrita, no exato segundo em que ela é erguida ao céu.
Para chegar até ali, o caminho foi de jatinho particular. Um helicóptero ou uma limusine leva do aeroporto direto ao estádio, sem filas, sem multidão, sem espera. O assento fica na primeira fileira, na linha de meio-campo. Há lounge privativo, alta gastronomia, equipe de segurança dedicada e um time inteiro de pessoas coordenando os bastidores para que nada atrapalhe a experiência.
Tudo isso está à venda como um pacote único, e o acesso a ele é, em essência, simples: basta pagar.
O preço desse desejo destilado tem um número exato: quatro milhões de dólares, cerca de vinte milhões de reais, por seis lugares. É a primeira vez na história do torneio que algo assim é oferecido publicamente.
A oferta é da Knightsbridge Circle, uma empresa de concierge de luxo que atende um público de altíssima renda e mantém cerca de noventa membros, todos avaliados antes de serem aceitos. O pacote para a final foi anunciado a esses membros e vendido a um deles em menos de vinte e quatro horas. O que ele compra não é apenas conforto: é acesso. O direito de pisar no gramado durante a cerimônia de premiação é, normalmente, reservado a um círculo fechadíssimo: jogadores, dirigentes da FIFA, chefes de Estado e patrocinadores oficiais. Pela primeira vez, esse acesso entrou à venda.
A história foi revelada originalmente pelo Washington Post e correu o mundo. Stuart McNeill, fundador da empresa, resume o que mudou nesta edição: depois de vinte e dois anos trabalhando com o mercado de luxo, sua maior surpresa é que, nesta Copa, o dinheiro pode comprar praticamente qualquer coisa, algo que ele não via nas anteriores.
E quem perdeu o pacote dos quatro milhões ainda tem uma saída. A empresa abriu uma nova oportunidade: dois assentos exclusivos na beira do gramado, a um milhão e meio de dólares (cerca de sete milhões e meio de reais) cada um.
Esse é o topo de uma pirâmide larga. A maior parte do mercado de luxo da Copa não custa milhões. Especialistas em viagens sob medida calculam que um pacote confortável para um casal, com hospedagem cinco estrelas, ingressos para uma partida, voo em classe executiva e translado privativo, fica entre vinte e cinco mil e setenta e cinco mil dólares. Pacotes mais completos começam na casa dos cinquenta mil e podem chegar a centenas de milhares quando envolvem várias cidades-sede e múltiplos jogos. Só o ingresso VIP, dependendo da partida, parte de cinco mil dólares por pessoa. Para efeito de comparação, o acesso oficial ao Trophy Lounge do MetLife, vendido pela FIFA, sai por trinta e cinco mil dólares por pessoa, e o pacote oficial mais caro da casa, com oito jogos mais a final, beira os setenta e três mil por cabeça.
Os números sobem porque a base já subiu para todos. O ingresso oficial mais barato da final parte de pouco mais de dois mil dólares, mais a taxa de serviço, e a revenda chegou a listar assentos comuns por perto de dois milhões e trezentos mil dólares por uma única cadeira. Na Copa do Catar, em dois mil e vinte e dois, o ingresso mais caro da final custava cerca de mil e seiscentos dólares. O equivalente em dois mil e vinte e seis chegou a ser vendido por mais de dez mil.
Para esse público, porém, o preço quase nunca é o ponto. O que importa é conveniência, privacidade e acesso. São viajantes que voam em jatos próprios, hospedam-se nas suítes mais caras, levam a própria equipe e esperam uma experiência sem atrito: sem multidão, sem espera, sem precisar pensar em nenhum detalhe. Tratamento de tapete vermelho, como diz McNeill, e estão dispostos a pagar por isso. Outra marca registrada é a decisão de última hora: muitos só fecham os planos depois de ver se a sua seleção avança. Se o Brasil chegar à semifinal, embarcam no avião e vão, esteja o jogo onde estiver.
Não é novidade. É padrão, e crescente.
O futebol se juntou tarde a um modelo que outros esportes já praticavam. No Super Bowl, as suítes de luxo são vendidas há anos por valores entre seiscentos mil e dois milhões e meio de dólares, dependendo do estádio e da vista. Em edições recentes, camarotes do tipo "owners club" passaram de três milhões. O jogador Travis Kelce chegou a comprar uma suíte para acomodar a própria família e a da cantora Taylor Swift, em negócio estimado em alguns milhões. Empresas tratam o evento como ferramenta de relacionamento: uma companhia de tecnologia do Vale do Silício relatou ter gasto cerca de dois milhões e novecentos mil dólares somando suíte, logística, gastronomia e viagem, usando o dia do jogo como plataforma para receber clientes e investidores. E só para chegar lá, fretar um jatinho no fim de semana custa de quinze mil a mais de cem mil dólares, fora as taxas de pouso para grandes aeronaves, que podem passar de quarenta mil por evento.
Nas Copas, o luxo oficial bate recordes a cada edição. O programa de hospitalidade do Catar, em dois mil e vinte e dois, vendeu perto de duzentos e cinquenta e sete mil pacotes e superou a marca anterior, do Brasil em dois mil e quatorze. O modelo de hospitalidade de altíssimo padrão acompanha o torneio desde a África do Sul, em dois mil e dez, passando por Brasil, Rússia e Catar. Lá em Doha, um ingresso VIP de fase de grupos já saía por quase cinco mil dólares, e havia suíte "chefe de Estado" por vinte e seis mil dólares a diária, com estadia mínima de trinta noites.
A conclusão é direta: experiências de altíssimo luxo em grandes finais não são exceção, são parte estrutural desses eventos. Para esse público, comparecer costuma funcionar como símbolo de status e como rotina. O que a Copa de dois mil e vinte e seis tem de inédito não é a existência do luxo, mas o seu teto. Pela primeira vez, até o gramado, até o instante simbólico em que a taça sobe, entrou no catálogo do que se pode comprar.
Esse fenômeno admite mais de uma leitura. Há quem veja nele um sintoma de um esporte que se distancia do torcedor comum, à medida que os preços sobem para todos, e há quem veja uma oportunidade de mercado. Os dois pontos de vista são legítimos. Para quem olha pelo ângulo de negócio, alguns dados ajudam a dimensionar o tamanho dessa oportunidade.
Por trás dessa história existe um mercado real e em expansão. O mundo tem hoje cerca de quatrocentas e vinte e seis mil pessoas com patrimônio acima de trinta milhões de dólares, somando perto de sessenta trilhões de dólares, um grupo que deve crescer quase quarenta por cento na próxima meia década. Esse público já direciona cerca de quarenta e cinco bilhões de dólares por ano para hospitalidade de luxo e experiências, num claro deslocamento de "ter coisas" para "viver momentos". E cada um deles conhece, em média, setenta outros indivíduos do mesmo nível. Ou seja, é um mercado movido a rede e indicação.
Se você empreende ou tem um negócio: o topo da pirâmide tende a pagar não pelo produto, mas pela ausência de atrito e pela exclusividade. Pergunte-se qual é a versão "sem fila" e "tapete vermelho" da sua oferta. Muitos setores têm um nicho premium ainda pouco atendido.
Se você trabalha com marketing ou marca: nesse segmento, o que pesa é acesso e status, não preço. Escassez genuína (um único pacote, dois assentos) costuma gerar mais desejo do que desconto. Vale lembrar, do outro lado, que cortejar apenas o topo pode trazer risco de imagem para marcas com público amplo.
Se você investe: vale observar as cadeias que servem esse público. Aviação privada, hotelaria de ultraluxo, concierge, eventos e imóveis de alto padrão tendem a acompanhar o crescimento da população ultrarrica. É uma tese de longo prazo, não uma aposta de curto, e como toda tese tem riscos próprios.
Se você vive de vendas e relacionamento: num mercado em que cada cliente conhece dezenas de pares, um único cliente bem atendido pode abrir uma rede inteira. O ativo central não é o ingresso, é a confiança.
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